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Quilombolas escrevem livro que une alimento e resistência

Obra coletiva valoriza a importância da proteção dos territórios quilombolas, fundamentais para a conservação da Mata Atlântica no Vale do Ribeira (SP)

Fartura é neta de Tradição, filha de Experiência e avó de Esperança e Legado. O conhecimento ancestral quilombola e a importância de transmiti-lo às novas gerações estão presentes nos nomes dos personagens do livro Na companhia de Dona Fartura, uma história sobre cultura alimentar quilombola, que enaltece o cultivo tradicional e sua contribuição para a preservação da Mata Atlântica.


“No Reino da Tradição, homens, mulheres e crianças aprendem a observar, interpretar e respeitar os sinais da natureza, pois estão conectados à ela. Assim, quando o sabiá canta, nos últimos meses do ano, é o pássaro abrindo a boca para dizer que é tempo de plantar arroz”, narra o livro.


Com as lições dos mais velhos e das mais velhas, autores e autoras de quilombos do Vale do Ribeira, no sudeste de São Paulo, escreveram e ilustraram a obra, que será lançada em 20 de agosto na Feira de Troca de Sementes e Mudas das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, na cidade de Eldorado.

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A cultura alimentar quilombola e seus saberes são parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola (SATQ), reconhecido em 2018 como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


O livro pretende destacar a relevância do cuidado com a terra, mostrando como diversas gerações de quilombolas têm mantido esses conhecimentos sem deixar que eles se percam com o tempo.


A riqueza da cultura alimentar quilombola nos traços dos ilustradores Amanda Nainá dos Santos e Vanderlei Ribeiro 📷 Divulgação

“Todo quilombola que planta a semente na terra é também uma semente que está plantada no território, e no tempo livre da natureza vira ancestral e a terra o recebe. É por isso que celebramos a vida no território que a todos alimenta e acolhe”, escrevem os autores.


Luiz Marcos de França Dias e Laudessandro Marinho da Silva são professores e moradores dos quilombos São Pedro e Ivaporunduva, respectivamente. Já Márcia Cristina Américo e Viviane Marinho Luiz, também professoras e autoras dos livros, são aquilombadas, expressão usada para pessoas que, mesmo não tendo nascido nas comunidades, defendem os direitos fundamentais de quilombolas e acompanham cotidianamente as dinâmicas dos territórios.

Justamente por viverem nesses locais, os quatro conseguem contar com detalhes as lutas das famílias quilombolas contra injustiças raciais, ambientais e sociais. Eles ainda utilizam os livros como material pedagógico nas aulas das escolas quilombolas da região do Vale do Ribeira.


Ilustrado por Amanda Nainá dos Santos e Vanderlei Ribeiro, o livro Na companhia de Dona Fartura, uma história sobre cultura alimentar quilombola permite que leitores e leitoras possam se reconhecer nas páginas, com trabalhos inspirados em fotografias, locais e pessoas das próprias comunidades da região.


Esse é o segundo livro do grupo, que em 2020 escreveu o Roça é vida, sobre a importância do trabalho coletivo na roça e o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola do Vale Ribeira.


Riscos da má alimentação

Autores e autoras procuraram demonstrar a importância da diversidade de alimentos produzidos nas roças tradicionais em um período em que cresce o consumo de ultraprocessados e, consequentemente, de casos de pressão alta e diabetes na população.

Quem mais sente o impacto do consumo de alimentos ultraprocessados são as pessoas negras, que consomem 33% menos alimentos in natura que pessoas brancas, de acordo com dados da pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco para Doenças Crônicas, do Ministério da Saúde.


ananas dos quilombolas do Vale do Ribeira são distribuídas a comunidades vulneráveis de São Paulo 📷 Alexandre Schneider/Instituto Brasil a Gosto

Esse baixo consumo de alimentos in natura é uma das consequências da insegurança alimentar, ou seja, quando as pessoas não têm acesso regular a alimentos de qualidade. No final de 2021, mais de 33 milhões de pessoas estavam em situação de fome, segundo pesquisa realizada em 2022 pela Rede PENSSAN, com apoio do Instituto Ibirapitanga.

O mesmo estudo mostrou que 65% dos domicílios com pessoas de referência preta está com algum grau de insegurança alimentar – um aumento de 8% em relação a 2020.


A dificuldade ao acesso a esses alimentos acontece também porque a maioria dessas pessoas vive nas periferias, áreas de "desertos alimentares", como são chamadas as regiões com escassez de produção ou comercialização de alimentos in natura.


Um levantamento feito em 2018 pela Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional avaliou 12 das 21 capitais brasileiras e apontou que nos subdistritos com menor quantidade de estabelecimentos que ofertam alimento in natura é também onde moram pessoas de menor renda, forçando-as a consumir mais alimentos ultraprocessados.


Assim, acontece o chamado "nutricídio", o genocídio alimentar que se dá a partir do consumo massivo de alimentos ultraprocessados. De acordo com Llaila Afrika, médico estadunidense que criou o conceito, as pessoas negras são as mais impactadas por esse processo de extermínio devido à má dieta imposta desde o período colonial.


Indo no caminho oposto, quilombolas que fazem parte da Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) fizeram entrega de alimentos in natura durante a pandemia para pessoas com insegurança alimentar em cidades da região e favelas no município de São Paulo. Assim, foi possível que a cultura alimentar quilombola chegasse à mesa de mais pessoas.

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